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Plotino e a Reintegração

Publicado em: 3/7/2012

Autor: Ir Arcano XIX


“Procurai sempre conjugar o divino que há em vós com o divino que há no universo" - Plotino

Reintegração é uma palavra comum no meio martinista. Pasqually, Saint-Martin, Papus sempre deram uma importância ao objetivo final do homem, que é o de se reintegrar, ou seja, voltar ao estado original do Ser. Antes de nossos Mestres um filósofo grego já desenvolvia idéias sobre a reintegração.

Plotino (204 - 270 D.C) foi discípulo de Amônio Saccas, fundador da primeira escola de neoplatonismo de Alexandria, que tinha como linha de pensamento encontrar conclusões místicas e sublimes sobre os ensinamentos de Platão.

Plotino era um homem muito reservado e jamais disse a seus amigos o dia de seu aniversário, alegava que não queria que celebrassem a oca-sião com sacrifícios e banquetes. Ele envergonhava-se de estar aprisio-nado em um corpo mortal. Certa vez observou: ”A descida de minha alma para este invólucro detestável é um acontecimento tão infeliz e assustador que não desejo discuti-lo”.

Plotino chegou a Alexandria quando a glória e a reputação da cidade ainda resplandeciam. À frente de sua magnífica escola de filosofia estava Amônio Saccas. Plotino ficou maravilhado com este homem, sobre quem mais tarde escreveria o seguinte: “este é o homem que tenho pro-curado desde sempre.”
Dentre os amigos de Plotino quem mais se destacou foi Orígenes, um mestre em alegoria. Para ele o ser humano não estava na terra ape-nas para contemplar os quatro cantos do universo: ”ele deveria pegar cada momento e segurá-lo ternamente nas mãos, compará-lo com outros momentos, com a terra e o céu, com os planetas, com as constelações - examinar qual outro sentido aquele momento poderia ter, qual outro propósito ou fim.”.

Após terminar seu curso com Amônio, Plotino viajou para Pérsia e depois fixou residência em Roma. Aos 49 anos fundou sua própria escola de filosofia e começou a escrever suas famosas Enéadas. Assim como Amônio e Orígines, Plotino era neoplatônico, mas como místico, suas idéias o levaram além, para mundos espirituais e filosóficos desconhecidos até então. Ele acreditava que os seres humanos estavam aprisionados pelas frustrações, frutos do corpo e de suas paixões.

Enquanto a mente estiver presa neste corpo material, é submetida ao mal e ao sofrimento. O mundo, contudo, é uma tumba muito maior; a mente deseja escapar de seu aprisionamento, mas não pode, e o resultado desse embate é a tensão.
Jacob Boehme também escreve sobre esta tensão. Em seu livro “A Revelação dos Mistérios Divinos” ele descreve que um “desconforto” atinge o ser humano em uma fase da sua vida, e este desconforto acaba sendo a centelha para o desenvolvimento do fogo espiritual que existe nele.

Segundo Plotino, a tensão entre a existência da mente em um mundo material e o desejo pelo eterno é comparável a um homem coberto de lama dos pés à cabeça, em que a beleza original é maculada pela fealda-de. Para tornar-se novamente belo, é preciso limpar-se, purificar-se a si mesmo pela ascensão gradual da mente daqui para lá – das regiões mais baixas para as mais elevadas: a realização do destino espiritual. “Aspirai aos dons mais altos” (1Cor 12,31) para atingir o Uno. Para Plotino, a causa última do universo é o Uno. Ele está além do mundo material e espiritual, ele é absolutamente Uno e absolutamente Bom. Todo o mundo criado procede do Uno, a unidade da qual emanou toda a multiplicidade que existe no mundo, onde todos os seres habitam.

Não só todas as coisas emanam dele, mas também lutam para retornar a Ele. Eis o drama da Reintegração: Encontrar a via que conduz à Unidade (O Bom, O Belo e a Verdade) em meio às dificuldades que a multiplicidade nos apresenta (vícios, medo e violência). Entretanto, poderia uma humanidade frágil, sempre se debatendo, atingir esse objetivo, a Reintegração? Plotino, é claro, falava da jornada espiritual, cujo objetivo não poderia ser alcançado “pela inútil prática de obrigar a aceitar a Deus ou adorar ossos de santos e mártires".

Se alguém quisesse sinceramente buscar a verdade eterna, deveria refugiar-se em sua própria mente e contemplar a si mesmo como o belo, agir como um escultor, cortar fora pedaços desnecessários, desbastar e entalhar profundamente até que um rosto seja formado. Quando o trabalho estiver perfeito, quando todo o ser estiver envol-to pela pureza e nada puder obscurecer sua força interior — quando discernir ele mesmo habitando na perfeição - é necessário dar mais um passo.
Se os olhos não estiverem borrados pelo vício — se for inteiro e for-te, se sua mente for bela, se for pura — ele poderá ver o que homem algum jamais viu: contemplar a si mesmo como Deus!

Esta é a mensagem que Plotino deixou para os Martinistas, de ontem e de hoje. Que é possível atingir a reintegração mesmo vivendo em um mundo cheio de dificuldades e tristeza. A pobreza, a doença e o crime não podem desviar o homem virtuoso que escolheu, de uma forma consciente, trilhar esta jornada espiritual rumo ao Uno. 

Nos laços da Ordem sou,

Ir  ArcanoXIX

 


Bibliografia:
Vrettos, T. - Alexandria, A cidade do pensamento ocidental.
Odysseus Editora, 2005

Leitura Recomendada:
Plotino – Tratado das Enéadas, Polar, 2002

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