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O Martinismo conforme o Dicionário das religiões do abade Migne

Publicado em: 22/4/2012

Autor: Texto cedido pelo site http://www.philosophe-inconnu.com


A partir de 1849, o abade Migne (1800-1875), que havia aberto uma tipografia, publicou vários volumes de teologia, de patrologia e pastoral. Essa publicação reúne quase 500 volumes e constitui-se numa gigantes-ca compilação de documentos.

Num dos volumes, o vigésimo-sexto de sua vasta Enciclopédia teológica - uma série de dicionários sobre todas as partes da ciência religiosa - ele evoca o martinismo. Esse artigo, publicado em 1850 e situado no volume III do Dicionário das religiões de sua Enciclopédia, contem vários erros e aproximações. Entretanto, ele representa um documento testemunho da ótica dos meios católicos do século XIX sobre o martinismo. Esta é a razão que nos fez pensar ser interessante reproduzi-lo neste site.

Sectários teosóficos, ao final do século passado, formaram um símbolo copiado parcialmente do cristianismo, parcialmente da filosofia natural e parcialmente do iluminismo. Mas o abade Grégoire pergunta qual é o fundador do martinismo; pois ele diz, pode-se escolher entre Saint-Martin e Martinez; efetivamente é o último que inicia Saint Martin nos mistérios teúrgicos. Ignora-se a pátria de Martinez de Pasqually, que morreu em São Domingos em 1799; presume-se, entretanto, que ele era português. Ele pretendia encontrar na cabala judaica a ciência que nos revela tudo aquilo que diz respeito a Deus e as inteligências criadas por Ele.

Ele reconhecia a queda dos anjos, o pecado original, o Verbo reparador, a divindade das Escrituras Sagradas. Ele dizia que, quando Deus criou o homem, Ele lhe deu um corpo material enquanto que antes este só tinha um corpo elementar. O mundo havia ficado igualmente no estado do elemento; foi Deus que coordenou o estado de todas as cria-turas físicas para aquele do homem.
Saint-Martin, nascido em Amboise no ano de 1743, teve a oportunidade de conhecer em Bordeaux Martinez Pasqually, que ele cita como sendo seu primeiro mestre e Jacob Boehme como o segundo. Essas relações decidiram o destino de sua vida e de sua teoria.

Saint-Martin havia primeiramente abraçado a profissão de advogado, a qual abandonou pelo exército; igualmente renunciou ao último, viajou para a Itália e Inglaterra e estabeleceu-se em Paris onde permaneceu até a Revolução; faleceu em Aulnay-les-Bondy em 1804. Produziu algumas obras teosóficas, dentre elas várias estão assinadas Filósofo Desconhe-cido. Ele tem a pretensão de fundar sua teoria nas relações eternas que e-xistem entre Deus, o homem e o universo, e adianta que essas relações são desenvolvidas não somente no Antigo e no Novo Testamento, mas em todos os livros de reputação, sagrados para diferentes povos.

Nós não entraremos aqui no detalhe de sua teoria, a qual seria bas-tante difícil de formular; ela é fundamentada quase inteiramente no ilu-minismo e numa física freqüentemente absurda. De um ponto de vista equilibrado, intercala-se uma imensidão de coisas ininteligíveis, no meio delas a razão se perde, na dança, no âmago; ela é a imagem da origem, desse matraz geral ou desse caos pelo qual a natureza temporal atual começou; - sobre a mente astral ou atur-dida: o templo de Jerusalém existiu para garantir as operações do culto levita das comunicações astrais.

A existência de seres corporais não é senão uma verdadeira quadratura. – Toda a natureza é um sonambulismo. – Nossa boca está entre as duas regiões interna e externa, real e aparente; ela é susceptível de rela-cionar-se tanto com uma como com a outra: os homens também se dão mais beijos desleais do que beijos sinceros e vantajosos. Se o homem tivesse ficado em sua glória, sua reprodução teria sido o ato mais importante e teria aumentado o brilho de seu sublime destino; hoje essa reprodução está exposta aos maiores perigos.

Num primeiro plano, ele vivia na unidade das essências, mas atual-mente as essências estão divididas: uma prova de nossa degradação é que seja a mulher terrena que produza hoje a imagem do homem e que ele seja obrigado a conceder a ela essa obra sublime que ele não é mais digno de operar por si próprio.
Entretanto, a lei das gerações dos diversos princípios, tanto intelectual quanto física é tal que, qualquer que seja o local para onde levar seu desejo, ele encontra logo um matraz para receber sua imagem: verdade imensa e terrível.

Num paralelo entre o cristianismo e o catolicismo, como se essas duas coisas não fossem idênticas, ele sentiu-se livre para depravar e caluniar o catolicismo que, como ele diz, é tão somente o seminário, o cami-nho das provas e do trabalho, a região das regras, a disciplina do neófito para chegar ao cristianismo.

O cristianismo conforta-se imediatamente na palavra não escrita; ele carrega nossa fé até a região clara da palavra divina: o catolicismo con-forta-se geralmente na palavra escrita ou no Evangelho e particularmen-te na missa: ele limita a fé aos limites da palavra escrita ou da tradição. – O cristianismo é o termo, o catolicismo é somente o meio; o cristianis-mo é o fruto da árvore, o catolicismo só pode ser o adubo; o cristianis-mo provocou a guerra somente contra o pecado, o catolicismo provo-cou-a entre os homens.

Nos reprovaríamos em não dar aqui uma lógica exata das idéias de Saint-Martin, pois seus próprios discípulos contestam as habilidades de apreciá-la por qualquer um que não seja admitido por seu sistema; al-guns o seriam apenas no primeiro grau, outros no segundo, no terceiro etc.; de onde resulta que é necessário esperar por uma graça interior ou, como eles dizem, uma revelação radical para poder pegá-la e compreen-dê-la.

Existe em Moscou uma seita, nascida na universidade de Moscou por volta do fim do reinado de Catherine II e pela conformidade com a teoria dos martinistas franceses lhe foi dado o mesmo nome. Ela teve como líder o professor Schwarts.

Os martinistas russos eram numerosos no final do século XVIII mas, tendo traduzido em russo alguns de seus manuscritos e procurado espalhar sua doutrina, muitos foram aprisionados e depois libertados quando Paul subiu ao trono. Atualmente eles foram reduzidos a um número muito pequeno.

Eles admiram Swedenborg, Boehme, Ekartshausen e outros escritores místicos. Recolhem os livros mágicos e cabalísticos, as pinturas hie-roglíficas, os emblemas das virtudes e dos vícios e tudo em que as ciências ocultas se apóiam.

Eles professam um grande respeito pela palavra divina que revela não somente a história da queda e da libertação do homem mas que, de acordo com eles, contém ainda os segredos da natureza; procuram também, por toda a Bíblia, os sentidos místicos. Isto é aproximadamente o que dizia Pinkerton em 1817.

 


Tradução Iacy de Ferran
Titulo Original: Le martinisme dans l'Encyclopédie Migne (1850)
Texto cedido pelo site http://www.philosophe-inconnu.com
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